Você não perguntou, mas eis o que penso da treta envolvendo “tua cantiga”.

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Chico Buarque lançou há poucos dias uma canção que pertence ao seu novo álbum com estreia programada para o dia 25 de Agosto de 2017. E uma polêmica circunda a canção “Tua cantiga”. Seria a canção machista? Seria o autor da canção machista? Não é nenhuma novidade as imensas discussões se Chico Buarque seria um tradutor exemplar da alma feminina, como muitos afirmam, ou se seria um autor que apresenta sempre as mulheres em sua obra de modo subalternizado. São discussões acaloradas e apaixonadas e que tem o potencial explosivo de distanciar amizades, criar celeumas em botecos, pôr fim a festas de batizado e assim por diante. Um debate ditado por paixões e amores profundos seja pelo artista seja pela política feminista.

Antes de qualquer coisa, eu gostaria de deixar explícito que eu gosto de Chico Buarque. Não se trata, apenas, de um gostar diminuto, gosto muito de Chico Buarque. Coisa que me faz escutá-lo pelo menos uma vez por semana, passando por variados discos e composições. No momento, escuto muitas vezes o álbum “Chico” de 2011. É um álbum maravilhoso, como muitos do Chico, sendo minha preferida “Ah se eu soubesse”. Recebi uma das mais lindas declarações de amor ao som de “Tem mais samba”, do álbum “Chico Buarque de Hollanda”, de 1966, outra maravilha do artista. Faz parte de minha alma pisciana.

Ao contrário de muitas pessoas, eu não conheci Chico Buarque apenas na Universidade, me recordo de escutá-lo em casa na infância, principalmente os sambas e canções com Gilberto Gil e Caetano Veloso. Mas é bem verdade que o mergulho no todo de sua obra aconteceu na Universidade. Algo inevitável nas Ciências Humanas de universidades públicas brasileiras. O sambinha das quartas e quintas-feiras no centro acadêmico tem Chico obrigatoriamente. As chapas de disputa no movimento estudantil tem uma séria tradição de ter nomes com trechos de músicas de Chico Buarque, principalmente de sua fase de “protesto”. Há, inclusive, a máxima de beleza das faculdades de filosofia, letras e ciências humanas de que o rapaz ideal, que toda moça das ciências humanas suspira, é o “tipo Chico Buarque”. Aquele moço que gosta de sambas de partido alto, literatura, faz alguns rabiscos, tenta alguns poemas, é sempre politizado, toca algum instrumento de corda, passa madrugadas discutindo arte, política regado a cerveja – Chico prefere whisky, mas não dá pra pedir iguaria alcoólica de maior valor para um estudante de graduação, não é mesmo? Enfim, tudo isto para dizer que: eu gosto de Chico Buarque. Portanto, não se trata aqui de qualquer desconstrução, aliás, pouco disso se verá.

Mas, também, não vá achar que o que eu escreverei abaixo seja superior a toda a discussão. Pelo contrário. É só o que eu acho. Você pode até questionar que seria mais uma no plano da opinião. E é isso mesmo. Um blog pessoal, totalmente despretensioso, não objetiva mais do que opinião. Mas blog serve exatamente para isso, não é? Ninguém perguntou, mas a ideia de um blog, quando surgiu, era de um diário eletrônico, ou seja, um espaço em que todo mundo escreve uma série de coisas que ninguém perguntou. Um diário aberto, digital, substituindo o diário que trancávamos com cadeadinhos que poderiam ser facilmente quebrados. E eram.

 

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“Literatura é o conjunto das produções feitas com base na criação de um estilo que é finalidade de si mesmo e não instrumento de demonstração ou exposição. Mais restritamente, é o conjunto de obras em estilo literário que manifestam o intuito de criar um objeto expressivo, fictício na maior parte”.

(Antonio Candido) (1)

 

Já na primeira oportunidade uma explicação objetiva e simplificada de Antonio Candido sobre a literatura. Objetiva porque, logo no início, exorta que literatura se trata de uma narrativa fictícia, na maioria das vezes. Usarei as ferramentas da análise literária, porque, a despeito de ser uma música, há variadas discussões se a escrita de Chico Buarque seria, também, poética. Eu entendo que seja. E, em considerando que música e poema têm diversos elementos que se encontram (rima, melodia, cadência, etc.), entendo que cabe.

Ainda em outro campo de premissa, é também de Antonio Candido a afirmativa de que literatura é um direito e que a mesma exerceu sempre papel central nas diversas sociedades. Em seu livro “Direito à literatura”, ele ainda assinala:

“A respeito destes dois lados da literatura, convém lembrar que ela não é uma experiência inofensiva, mas uma aventura que pode causar problemas psíquicos e morais, como acontece com a própria vida, da qual é imagem e transfiguração. Isto significa que ela tem papel formador da personalidade, mas não segundo as convenções; seria antes segundo a força indiscriminada e poderosa da própria realidade. Por isso, nas mãos do leitor, o livro pode ser fator de perturbação e mesmo de risco”. (2004) (2)

Estas premissas para afirmar que, ao mesmo tempo em que literatura e a escrita literária tão pouco sejam espelho da realidade, isso, de modo algum, a distancia de potencialidades de transformação e de alterar sentidos e percepções do fantástico ou da realidade.

A poesia, por sua vez, seria o campo da dimensão da criação poética, o que se apresenta no ato de criação do poeta e não está presente apenas no poema. Conhecemos diversas narrativas em prosa que são cheias de poesia. O poema seria a realidade concreta sobre a qual é possível realizar análise, enquanto que a poesia pressupõe um estudo interpretativo. Para Antonio Candido, a investigação de um poema deve obedecer duas etapas: comentário e interpretação. O primeiro, analítico, informativo e objetivo; e a segunda, interpretativa, interna, arbitrária. “Não há comentário válido sem interpretação; e pode haver interpretação válida sem comentário” (3), afirmou o crítico. Ou seja, o comentário de um poema significa analisar sua estrutura objetiva: métrica, tropos, figuras de linguagem, rima, ritmo, etc. E a interpretação é cabível para poemas que nos dizem algo, sendo várias as interpretações possíveis sobre o mesmo.

Não pretendo fazer aqui um comentário sobre “Tua cantiga”, posto que é possível propor uma interpretação sem ser precedida da análise objetiva. Mas apresentar um pouco da minha interpretação da canção.

Em primeiro lugar, é importante afirmar a diferença entre autor e voz do poema. É verdade, o eu-lírico não é o eu empírico do autor, conforme apontado por Anatol Rosenfeld em A Personagem da ficção. Também é verdade que há, historicamente, diversos entendimentos na crítica literária sobre a voz do poema. Uma das coisas importantes de levar em conta é que também é possível que exista referência indireta a vivências reais ou a uma observação para a criação desta voz lírica ou de uma personagem. Ou seja, não há 100% de neutralidade, há sempre um resquício, um ponto subjetivo naquela construção. E estes pontos subjetivos são transfigurados para a construção da narrativa imaginada em linguagem poética. Goethe, em sua fase romântica, segundo aponta Rosenfeld, considerava a poesia uma expressão direta da verdade. Posteriormente, este entendimento foi modificado. Já Fernando Pessoa entendia o poema como “forma viva de beleza” e afirmou, em um de seus versos mais conhecidos, que “o poeta finge mesmo a dor que deveras sente”.

Em segundo lugar, o poema, uma composição, um romance, enfim, a escrita literária jamais será uma foto, um retrato do real, mas sempre a “dimensão simbólica e estilizada de certas experiências” (4). Mas note o uso de “experiências” ou, como já dito, “observações”. A narrativa ficcional é um “quase-juízo”, tem uma natureza mimética e que objetiva aparentar a realidade e não ser a exata realidade ou deixa de ser literária e passa a ser histórica.

Segundo Susan Sontag, a literatura não é uma soma arbitrária de sonhos e memórias e a leitura, mais do que uma fuga do real ao imaginado, é um modo de sentir-se humano. Para isso, o escritor precisa ser aquele que presta atenção ao mundo e faz da linguagem este espaço de medo do mundo, mas que é inevitável observá-lo e senti-lo.

Recentemente, Mia Couto foi questionado em uma entrevista sobre suas personagens femininas. Ao ler os livros do escritor moçambicano, recheados de poética em prosa, encontramos muitas representações de personagens femininas. Muitas, sendo fios importantes de condução da narrativa. E como é possível que um escritor homem construa personagens femininas? A resposta de Mia Couto foi importante para este entendimento. O escritor afirmou que para escrever, o autor precisa desprender-se de preconceitos, de limitações, de, além de buscar na observação, na pesquisa para a escrita literária, procurar em si pontos de construção daquelas personalidades, acessar o seu lado feminino para isso. A narrativa construída, as personagens representadas são absolutamente ficcionais, mas não podem perder o ponto de ligação com o mínimo de realidade ou perdem o caráter de verossimilhança. Não se trata de uma realidade espelhada, repito, mas de transfiguração.

Não acho, com isso, que seja possível, através de um poema, de uma música, fazer uma análise real de um autor, de suas crenças, etc. Mas é possível, no decorrer de uma obra, compreender pontos de intrigamento quando as personagens femininas são sempre representadas como seres histéricos, loucos de amor, subservientes. Abre-se, portanto, o espaço da interpretação de leitura. Quando um escritor exerce a escrita, ao expor palavras, estas já deixam de ser suas, estão colocadas no mundo, abertas para críticas e interpretações. Interpretações podem não significar a leitura exata do objetivo do autor ao escrever aquela narrativa literária – acho que na maioria das vezes não tem qualquer relação direta com o objetivo do autor, se é que ele teve algum – mas não podem ser absolutamente desqualificadas sob supostas leituras e entendimentos de recursos literários que abrem, justamente, o espaço de interpretação. Ora, obviamente, que em uma faculdade de Letras aprende-se que não é possível fantasiar interpretações, que estas devem ser baseadas na concretude do poema, usando moderadamente, elementos conjunturais, históricos e sociais, posto que o texto literário, repetirei de novo, não é um espelho de realidade. Mas, também, como disse, a literatura tem sua potência, tem seu espaço no todo social ou estaríamos defendendo uma arte pela arte como se, mesmo nesta máxima, não houvesse uma ideologia. Literatura, assim como todas as artes, tem elementos de reflexão do tempo a que pertencem, é um elemento que possibilita pontos de entendimentos de sociedades.

A canção “tua cantiga”, já no uso de cantiga apresenta o caráter de amor que narrará. Um amor de espera como das cantigas trovadorescas, de homens apaixonados por suas donzelas. Ao mesmo tempo, brinca com a contemporaneidade ao mostrar que esta donzela que “deixa cair o lenço” também o chama quando bem entende e que tem este elemento de espera e também de independência ao dizer “entre suspiros/ pode outro nome/ dos lábios te escapar…”, e até mesmo demonstrando o que esta donzela não estaria de todo à disposição, já que a passagem deste amor ao cantar se explicita no verso: “e quando o nosso tempo passar…”. Ora, daqui muita coisa pode ser dita. Há uma dubiedade, a meu ver, nesta construção narrativa. Uma donzela que sussura o nome de outro ao amante-amado, que o deixa em espera ao invés de esperar, etc, etc.

Não entendo, contudo, que a crítica à música, e não ao autor, deva ser totalmente desconsiderada. Vivemos em uma sociedade com diversos problemas estruturais nas relações de poder entre homens e mulheres, brancos e negros. Uma realidade em que homens, de fato, largam mulher e filhos sem nenhum arrependimento para seguir aventuras amorosas. Criticar isto não significa um moralismo contra o adultério, mas um chamamento a responsabilidade de que você pode, quando quiser, “abandonar” a mulher, mas jamais os filhos. Em uma sociedade que desobriga homens da paternidade, em que milhões de crianças não tem o nome do pai no registro, isto é necessário? Divorcie-se, viva, questione-se em si sobre traição, já que um elemento passível de questionamento e entendimento diferenciado entre as pessoas, mas não abandone os filhos, chapa! A questão que acho que não pode ser desconsiderada é: precisamos romantizar esta situação? Outro ponto criticado na canção é o fato de uma mulher “rainha” da casa. Em uma sociedade como a nossa, na qual mulheres apanham porque não lavaram a louça, há o que romantizar na figura de “rainha da casa”? Há o que romantizar no papel doméstico e privado relegado às mulheres? Queremos ser rainhas do mundo junto a nossos companheiros ou sozinhas e não rainhas do lar, seu personagem de “tua cantiga”! Seria necessário reafirmar estas personagens de modo tão romântico, como se algo positivo? Em uma sociedade em que mulheres negras são sempre representadas como lascivas, amantes, é necessário utilizar “minha nega” ao falar da amante? Há diversos trabalhos falando sobre como a mulher negra é representada historicamente nas artes e como isso reafirma no imaginário social um papel a ser desempenhado por mulheres negras. Há trabalhos belíssimos e importantes discutindo a questão da solidão da mulher negra, como a maioria do contingente de mulheres “abandonadas” com “filhos” e tendo que se virar para dar conta da vida. E volta a pergunta: precisamos disso, seu personagem?

Óbvio que essa é uma interpretação. Óbvio que esta é uma posição. E, óbvio, que deve ser feita no campo do diálogo e do questionamento entendendo que este é um campo que entraria e influenciaria no processo criativo do autor. E que, mais uma vez obviamente, tem limitações literárias. Mas, vocês acham que estão certos ao dizer que esta crítica não pode ser realizada? Claro que pode! Assim como outras interpretações são possíveis. Mas que precisam ser realizadas com o mínimo de honestidade intelectual e literária e levando em conta as questões de fundo expostas por diversas feministas, notadamente negras. Trata-se de elevar o campo da discussão e não falar vários absurdos sobre o que seria o eu-lírico, sobre o que seria representação, em uma confusão absurda de representatividade e representação da personagem ou que não se pode criticar uma composição do Chico Buarque porque ele é “lindo” (o que concordo) e/ou “melhor do que tudo que está aí”. Até porque, a última afirmação é absolutamente carregada de juízos de valores, sobre estratificação e hierarquização da produção artística.

Eu, particularmente, me incomodo com uma autoria perpassada a vida toda pela representação da personagem feminina, em sua imensa maioria, como seres destemperados, histéricos, lascivos e subalternizados. Sempre me pergunto se isto é necessário de ser produzido de modo romantizado, esquecendo em absoluto de que, por mais que imaginado e ficcional, esta narrativa relaciona-se com a realidade e potencializa sentimentos.

O texto literário já teve momentos de intensa importância na configuração de uma identidade nacional em diversas sociedades, e ainda o tem, sem qualquer dimensão panfletária. É possível. Eu ainda prefiro autores que usam da ironia para retratar as elites e personagens hegemônicos, ou mesmo outros que apontam características e dimensões potentes em seres subalternizados socialmente. Mas como coloquei: é o que eu prefiro. E, em tendo letra e verso tomado o mundo, estão abertos para que a crítica seja exercida e apontada. Há de se estar preparado para isso. Creio que Chico Buarque, pela sua importância e qualidade literária em outras obras, está. Já o fã clube…

(1) Candido, Antonio. O estudo analítico do poema.

(2) Candido, Antonio. O direito à literatura. 2004.

(3) Rosenfeld, Anatol et alii. A personagem da ficção.

(4) idem

Brevíssimas do Facebook – que democracia?

Breves devaneios.

Um dos termômetros para analisar democracias de baixíssima qualidade, ou de baixa intensidade, é o surgimento de outsiders na política. E estes discursos e práticas reverberam tanto à direita quanto à esquerda. Mesmo que com a melhor das intenções – e o ditado já nos avisava – reforçamos um distanciamento da política como cotidiano das pessoas ao dizermos, pela esquerda, que apresentamos candidatos que “não são da política”.

Não há espaço para a negação direta da democracia no mundo contemporâneo. Muito menos haverá uma destruição do conceito de democracia representativa por parte das elites. Aliás, alguns estudiosos apresentam, justamente, que neste reordenamento sistêmico que vivemos, a democracia representativa se reforça na representação dos 1% do globo e para eles pouco importa os outros 99%. Por isso que falar que a “democracia” está em perigo ou está suspensa é um discurso tão difícil de pegar. Qual democracia? Que tipo de democracia?

Acho que teremos, cada vez mais, sociedades politicamente democráticas e socialmente fascistas. E já vivemos isto como laboratório exemplar na cidade de São Paulo. Dória eleito democraticamente, com o poder do money definindo rumos e impondo uma agenda fascista, de limpeza social e racial na cidade. Mesmo Temer, que se utilizou de mecanismos legais – mesmo que de forma não tão legal – para chegar ao poder e pouco tem se importado com pesquisas porque “a representação” está no Congresso, que se define, assim como se elege, pelo money. Trump foi eleito no modelo representativo norte-americano, mesmo que sem a maioria popular. Money.

É tudo business no mundo em que viramos commodities. E ficar berrando que queremos democracia sem dizer exatamente que tipo de democracia é essa que queremos é chover no molhado. Quem já se vê pouco representado não vê vantagem.

Acho que a expressão “power to the people”, neste mundo de multidões, nunca fez tanto sentido.

Brevíssimas do Facebook – Lacre

Vocês tem tanto problema com o verbo-gíria “lacrar” quanto tem com “top”. Um problema de classe e de raça. Ocorre que o segundo é o que obedece o padrão (homem, branco, hétero, de classe média/alta, otário por minha conta). Enquanto que “lacre” surge em um contexto de (re) existencia diante de uma vida cotidianamente oprimida, negada e renegada a “sobrevivência”. São pessoas cansadas de sobreviver e que buscam viver. Jovens que criam seus modos, jeitos, estilos como modo de dizer que existem e importam.

Não a toa, a categoria incomodada com o verbo-gíria segue um perfil: esquerda universitária, branca e salvadora. Ocorre que vocês não salvam ninguém. Nem na crítica nem na reinvenção.

Muito boa noite. #pas

Brevíssimas do Facebook – silêncio

Eu gosto do silêncio. Gosto da calmaria e de paisagem bucólica para refletir e escrever. No máximo, um jazz baixinho para desopilar e fazer fluir. O silêncio não é vazio, pelo contrário. É pleno, vasto e potencializador. Muitas vezes, fui confundida com alguém sem muito repertório de conversa, principalmente com crushes. Na verdade, eu acho que o silêncio diz muito mais de alguém do que o contrário. O silêncio é cristalino.

Óbvio que eu também adoro conversas, papo pro ar com amigas. Não defendo múmias. Só acho equivocado pensar que não há visceralidade no silêncio. A capacidade de ficar em silêncio junto é algo para poucos e de profunda intimidade. Odeio a necessidade de perguntas a todo o tempo, principalmente para preencher o tempo. O silêncio já preenche o tempo, a mente e o corpo.

O mundo precisa de mais silêncio. Esse barulho todo ensurdece, afasta, desqualifica e enfraquece. Silêncio permite a expansão da escrita, a limpeza mental e propicia gritos mais intensos e potentes. Adoro gritar depois do mais profundo silêncio. Gritar com toda a força. E depois voltar ao silêncio.

Angela Davis: “Não ao feminismo carcerário e sim ao feminismo abolicionista!”

Transcrição de Naruna Costa da fala de Ângela Davis na Reitoria da Universidade Federal da Bahia no dia 25.7.2017 (trad. simultânea: Profa. Raquel de Souza).

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Eu não tenho nem condições de expressar a vocês o quanto estou emocionada por estar aqui nesta noite. Para mim, é assim que deveria ser a aparência da universidade. Quero agradecer à Ângela Figueiredo, ao Odara. Quero agradecer também ao NEIM pelo convite para homenagear o dia 25 de julho. Essa é minha quarta visita a Bahia e sexta ao Brasil.

Neste momento, me sinto extremamente envergonhada por ainda não ter aprendido português. Esse é o meu próximo projeto. Estou muito feliz por estar aqui celebrando com vocês o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha. Na Bahia, o Julho das Pretas. Estou muito entusiasmada por estar aqui no Brasil, especialmente porque tenho acompanhado os acontecimentos que vêm se desenvolvendo dentro do movimento das mulheres negras.

Me parece que, neste momento, o movimento das mulheres negras brasileiras representa o futuro do planeta. As mulheres negras brasileiras têm uma história extensa de envolvimento em lutas pela liberdade. Como tem sido simbolizado, por exemplo, pela Irmandade da Boa Morte. O conceito de Boa Morte nos convida a imaginar a imagem de um futuro melhor. Isso me leva a reconhecer as amplas contribuições das mulheres negras no Brasil e na Bahia no contexto da cultura religiosa.

Durante a minha visita, fui honrada com a possibilidade de atender uma oficina oferecida na Irmandade e também de passar um tempo na Roda de Samba da Dona Dalva. Tive a oportunidade de aprender sobre o trabalho de Dona Dalva na preservação do samba de roda. Recentemente ela recebeu um título de doutora honoris causa pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Também tive a oportunidade de me encontrar e conhecer a Ebomi Nice. Quero também ressaltar que há alguns anos fui honrada com um convite para conhecer o terreiro de Mãe Stella de Oxóssi e me encontrar com ela, que me disse sobre seus esforços a fim de preservar a cultura e a religiosidade dentro das tradições baianas e que as mulheres negras estão no centro dessas tradições.

Como foi dito por Dulce Pereira, já venho ao Brasil desde 1997. Nunca vou me esquecer do encontro que ocorreu em outubro daquele ano, em São Luís do Maranhão. Tive a oportunidade de encontrar Luiza Bairros pela primeira vez. O espírito de Luiza Bairros continua presente. Também encontrei pela primeira vez Vilma Reis e tantas outras mulheres negras maravilhosas, as quais continuo a me encontrar todas as vezes que venho ao Brasil.

A atual visita, organizada pela professora doutora Ângela Figueiredo, foi um encontro organizado em um contexto mais amplo, um curso em Cachoeira sobre o feminismo negro decolonial. Quero agradecer a Ângela — toda vez que alguém chama por ela, eu também olho — por me convidar para voltar a Bahia várias vezes. As pessoas me perguntam se eu já fui ao Rio de Janeiro, a São Paulo. Não, mas eu venho a Bahia de novo, de novo e de novo.

Menciono essa escola porque ela reuniu estudantes negras do Brasil, América do Sul, África do Sul, Canadá, Estados Unidos e Porto Rico. Ao fazê-lo, produziu concepções importantes que poderiam não ter sido disponibilizadas se esse encontro não tivesse ocorrido. Todas nós, que tivemos a oportunidade de estar aqui, vindouras de outras partes do mundo, temos muita sorte de estar aqui neste momento, onde o ativismo de mulheres negras está em um nível elevado e pungente.

Como já foi dito e reiterado várias vezes, o movimento social liderado por mulheres negras é o movimento social mais importante do Brasil. Após o golpe antidemocrático que resultou na deposição de Dilma Roussef, as mulheres negras criaram a melhor esperança para este país. Muitas de nós, nos Estados Unidos, estamos entusiasmadas acompanhando a Marcha das Mulheres Negras no Brasil desde novembro de 2015. Nós continuamos a sentir as reverberações dessa Marcha. Agora estamos no Julho das Pretas.

Este é um momento difícil para o nosso planeta por vários motivos, mas, sobretudo, por termos uma guinada à direita na Europa, nos Estados Unidos, na América dos Sul e especialmente no Brasil. Não tenho nem como começar a explicar para vocês qual é o sentimento de morar nos Estados Unidos onde Donald Trump é presidente. Mas não devemos nos esquecer que, um dia após a posse de Trump, o movimento de mulheres levou para Washington três vezes mais pessoas que o número que participou da cerimônia de posse. Estima-se que mais de cinco milhões de pessoas participaram da Marcha das Mulheres contra Trump no mundo, inclusive na Antártida.

A Marcha das Mulheres em Washington foi liderada por mulheres negras, latinas, asiáticas, indígenas, muçulmanas, e também mulheres brancas. Nos encontramos em Washington, por todo o mundo e todos os países, para dizer que nós resistiremos. Todos os dias da presidência de Trump, nós resistiremos. Nós resistiremos ao racismo, à exploração capitalista, ao hetero patriarcado. Nós resistiremos ao preconceito contra o Islã, ao preconceito contra as pessoas com deficiência. Nós defenderemos o meio ambiente contra os insistentes ataques predatórios do capital. Aqui em Salvador, no dia 25 de julho, dedicado às mulheres negras na América Latina e no Caribe, afirmamos ainda de forma mais forte: com a força e o poder das mulheres negras dessa região, nós resistiremos.

Sabemos que as transformações históricas sempre começam com as pessoas. Essa é a mensagem do movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter). Quando as vidas negras realmente começarem a ter importância, isso significará que todas as vidas têm importância. E podemos também dizer especificamente que, quando as vidas das mulheres negras importam, então o mundo será transformado e teremos a certeza de que todas as vidas importam.

As lutas das mulheres negras estão conectadas com as lutas de pessoas oprimidas em todas as partes. Com aquees que dizem “não” às políticas anti-imigratórias de Trump e à construção de seu muro. Com aqueles que dizem “não” ao apartheid e ao muro que separa Israel da ocupação Palestina. Com aqueles que dizem “não” ao racismo e à misoginia na Colômbia. Com aqueles que dizem não ao sistema de castas na Índia. Estamos em solidariedade com as mulheres Dalits em suas comunidades. Com aquelas que dizem “não” à violência cotidiana, doméstica e íntima, que incide sobre as mulheres negras e que, geralmente, são impostas a elas por homens negros.

Finalmente as mulheres negras têm sido reconhecidas pelo trabalho em manter as chamas da liberdade acesas. Não é o tipo de liderança que visa dar visibilidade ou poder a indivíduos, baseada em carisma, o individualismo masculino carismático. Mas é o tipo de liderança que enfatiza as intervenções coletivas e apoia as comunidades que estão em luta. A liderança feminista negra é fundamentalmente coletiva.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, reconhecemos a importância de confrontar a violência de estado. Enquanto o racismo está saturando todas as instituições — nas questões da moradia, do emprego, da saúde e da educação — e pode ser mais dramaticamente reconhecido nos sistemas policiais e punitivos. As mulheres negras têm liderado ações contra a violência do estado, a violência policial e o racismo dentro do sistema carcerário, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

Tenho falado sobre a liderança das mulheres negras, mas eu deveria estar me referindo, na verdade, à liderança feminista negra. É necessário enfatizar a condição da mulher negra na perspectiva de gênero e de raça, reconhecendo que também está implicado nisso classe, sexualidade e gênero, para além da convenção binária. Nosso foco está nas mulheres negras empobrecidas, inclusive as que estão encarceradas, as queer, as trans, as com deficiência. Mas também estamos conscientes que não focamos na mulher negra a partir de um arcabouço separatista, porque as mulheres negras também estão se engajando nas lutas de outros grupos. Às vezes ao ponto de elas serem excluídas desses movimentos.

As mulheres negras estão entre os grupos mais ignorados, mais subjugados e também os mais atacados deste planeta. As mulheres negras estão entre os grupos mais sem liberdade do mundo. Mas, ao mesmo tempo, as mulheres negras têm um trajetória histórica que atravessa fronteiras geográficas e nacionais de sempre manter a esperança da liberdade viva. As mulheres negras representam o que é não ter liberdade sendo, ao mesmo tempo, as mais consistentes na tradição, que não foi rompida, da luta pela liberdade, desde os tempos da colonização e escravidão até o presente.

Lembremo-nos de Rosa Parks, que sempre enfatizou que queria ser lembrada como uma mulher poderia ser livre, de tal forma que todas as pessoas pudessem ser livres. Lembremo-nos de Lilian Ngoyi, líder do movimento anti-apartheid na África do Sul, que disse, em 1956, entre as suas irmãs: “Agora que atingiram as mulheres, vocês acionaram um trator e serão esmagados”.

Carolina Maria de Jesus nos lembrou que a fome deveria nos levar a refletir sobre as crianças e sobre o futuro muito antes de o conceito de interseccionalidade ser utilizado. Lélia Gonzales insistiu que não só deveríamos compreender a complexa inter-relação de raça, classe e gênero, mas que deveríamos ter em mente as conexões entre os povos indígenas e os povos negros. Essa são as lições que nós dos Estados Unidos precisamos aprender com a história do feminismo negro no Brasil.

O que me leva a levantar o próximo ponto. Existe, geralmente, a pressuposição de que a forma mais avançada de feminismo negro é encontrada nos Estados Unidos. É verdade que há muitas figuras norte-americanas reconhecidas pelo desenvolvimento do feminismo negro. Isso não deveria se dar pelo entendimento de que nos Estados Unidos estamos mais avançados. Essa é uma visão colonialista e imperialista. Na verdade, isso ocorre porque as ideias, sejam elas conservadoras ou radicais, circulam com mais facilidade a partir dos Estados Unidos do que as ideias que emanam do Brasil. Não posso me levar tão a sério assim. A meu respeito, gosto sempre de ressaltar que ninguém jamais conheceria meu nome se pessoas de todo o mundo, inclusive do Brasil, não tivessem se organizado para exigir minha liberdade, no princípio dos anos 70.

É verdade que cada uma dessas viagens que fiz ao Brasil têm me trazido novas perspectivas. Desde a primeira conferência de Lélia Gonzales, em 1997, no Maranhão, até a escola do feminismo negro decolonial da qual participei agora. A partir disso, passo a questionar o meu papel em trazer o conhecimento feminista negro para o Brasil. Passei a perceber que nós, nos Estados Unidos, somos aquelas que precisamos aprender com os conhecimentos e as perspectivas que são produzidas pela longa história de luta feminista negra brasileira.

Precisamos aprender sobre o poder feminista negro preservado dentro da tradição do Candomblé. Precisamos aprender sobre os movimentos organizados por mulheres negras trabalhadoras domésticas na Bahia e no Brasil. Tive o privilégio de conhecer Marinalva Barbosa, que é a presidente do sindicato de trabalhadoras domésticas da Bahia. Temos muito a aprender com a atividade dessas mulheres.

Nós ainda não conseguimos nos organizar de uma maneira bem sucedida através de sindicatos dessa categoria nos Estados Unidos, apesar do fato de que mulheres negras, trabalhadoras da limpeza, terem organizado uma greve em 1881, em Atlanta, na Geórgia. Mesmo apesar do fato de que nos anos 20 e 50 tenham havido esforços, que não tiveram sucesso, de organizar sindicatos dessa categoria. Não é uma coincidência que Alicia Garza seja uma das mulheres co-fundadoras do movimento Vidas Negras Importam. Mesmo assim, ainda não temos um sindicato de trabalhadoras domésticas.

Deixem-me compartilhar com vocês algumas palavras sobre o complexo industrial carcerário. O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, estou correta? Sendo a primeira nos Estados Unidos e depois vêm Rússia e China. Os Estados Unidos está aprisionando um quarto da população carcerária de todo o mundo. Se olharmos para a população carcerária feminina, um terço está encarcerada nos Estados Unidos.

Se tivéssemos tempo esta noite, poderíamos falar mais aprofundadamente sobre como essa população carcerária reflete o capitalismo global e como esse sistema negligencia as necessidades humanas. Essas pessoas não tem acesso a moradia, educação, saúde ou qualquer outro serviço que seja necessário para a sobrevivência. A rede carcerária mundial constitui um vasto depósito onde pessoas consideradas desimportantes são descartadas como lixo. Aquelas tidas como as menos importantes são as pessoas negras, do sul global, muçulmanos e muçulmanas, indígenas.

Quando nós trabalhamos e lutamos contra a violência do estado manifestada através de práticas policiais e de encarceramento, afirmamos que as vidas negras importam, que as vidas indígenas importam. A professora Denise Carrascosa, aqui da UFBA, tem liderado um projeto de mulheres dentro do sistema carcerário chamado “Corpos indóceis e mentes livres”, um projeto entusiasmante que reune mulheres encarceradas de tal forma que elas possam dramatizar as suas realidades, as suas vidas.

Esses são os tipos de projeto inovadores que produzem conhecimentos feministas sobre a relação entre a liberdade e a falta de liberdade. Acabei de ser informada que a professora Carrascosa tem sido impedida de entrar no complexo penintenciário feminino porque ela se juntou a outras encarceradas para protestar contra o tratamento punitivo aplicado a uma mulher que foi trancafiada, sendo-lhe negado o uso de medicamentos pós-operatórios.

Em função da professora Carrascosa ter levantado a sua voz, seu projeto, que já dura sete anos, foi barrado. O que vocês farão em relação a essa situação? Quero sugerir que vocês peçam a cada uma das pessoas aqui presentes para assinar uma petição exigindo que esse projeto seja reincorporado. Sabemos que nos últimos dez anos houve um aumento de 500% na taxa de encarceramento de mulheres e que dois terços de todas as mulheres que estão encarceradas no Brasil são negras.

Isso me leva aos meus últimos dois pontos. Um deles é a questão da reprodução da violência. Nós não podemos excluir a violência doméstica e íntima das nossas teorias sobre a violência do estado e institucional. Frequentemente, agimos como se uma não tivesse relação com a outra e que, se as mulheres negras são vítimas dessa violência cotidiana praticada por seus maridos e namorados, isso significa que os homens e garotos negros são violentos. Como podemos refletir sobre isso?

Nós precisamos nos perguntar qual é a fonte dessa violência que prejudica e fere tantas mulheres negras. Qual é a relação dessa violência com a violência policial e do sistema carcerário? Se essa violência do indivíduo está conectada com a violência institucional e do estado, isso significa que não conseguiremos erradicar a violência doméstica enviando aqueles que a praticam ao sistema carcerário. Se desejamos erradicar as formas mais endêmicas de violência do indivíduo da face da Terra, então devemos eliminar também as fontes institucionais de violência. Este é o chamado para a abolição do encarceramento como a forma dominante de punição para pensarmos novas formas de abordagem para aqueles que são violentados. Este é o chamado do feminismo negro para formas de justiça decoloniais.

Meu último ponto diz respeito aos contantes esforços para conter nossa resistência. Quando nós resistimos, as instituições dominantes e, sobretudo, o estado, tentam conter a nossa resistência. Querem transformar as nossas lutas, em estratégias de consolidação do estado. O movimento pelos direitos civis é agora é reivindicado pelo estado como central em suas narrativas sobre a democracia. Mas o movimento Vidas Negras Importam, principalmente na era Trump, é considerado um insulto.

No Brasil, agora que o mito da democracia racial foi totalmente exposto, a pergunta que se apresenta é se o movimento de resistência das mulheres negras pode ser apropriado. Afirmamos que, na medida em que nos levantamos contra o racismo, nós não reivindicamos ser inclusas numa sociedade racista. Se dizemos não ao hetero-patriarcado, nós não desejamos ser incluídas em uma sociedade que é profundamente misógina e hetero-patriarcal. Se dizemos não à pobreza, nós não queremos ser inseridas dentro de uma estrutura capitalista que valoriza mais o lucro que seres humanos.

Se reconhecermos que aqueles que queriam resolver a questão da escravidão buscavam formas mais humanas de escravização, nós estaremos utilizando a lógica do racismo. Reconhecemos que a reivindicação da reforma do sistema policial e da reforma do sistema carcerário apenas mantêm as estruturas racistas ao mesmo tempo em que finge se importar com as questões raciais.

É por isso que dizemos não ao feminismo carcerário e sim ao feminismo abolicionista (1). É por isso que nós convocamos essa solidariedade para além das fronteiras nacionais e ressaltamos que o feminismo radical (2) negro decolonial reconhece as nossas profundas conexões, mesmo a medida em que reconhecemos também nossas contradições.

A luta pelo acesso à agua no Quilombo Rio dos Macacos vem sendo rotulada como “terrorista”. Tenho aqui em minhas mãos um apelo que vêm do Quilombo Rio dos Macacos relacionada aos seus direitos humanos de acesso à terra e à água que lerei após o evento. Mas o que eu quero dizer é que as lutas que acontecem dentro dessa comunidade estão conectadas às reivindicações para a proteção da água por populações indígenas contra o veneno trazido pelos dutos de petróleo.

Essas lutas estão conectadas também aos esforços que ocorrem em Flynn, Michigan, em expor o envenenamento das águas nas comunidades negras. Essas lutas também estão conectadas com as das comunidades palestinas, engajadas em defender as suas reservas de água, alvo constante das forças militares de Israel. Somente através da solidariedade e da luta, nós poderemos preservar o nosso acesso a água.

Quilombolas, presente!

Finalmente, quero salientar a minha alegria em estar aqui com vocês no Brasil, Bahia, Salvador, celebrando o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha. Mulheres negras representam o futuro. Porque mulheres negras representam uma possibilidade real de esperança na liberdade.

 

Transcrição de Naruna Costa da fala de Ângela Davis na Reitoria da Universidade Federal da Bahia no dia 25.7.2017 (trad. simultânea: Profa. Raquel de Souza).

 

 

(1) Davis está aludindo ao abolicionismo penal e a formas anti-punitivistas de resolução de conflitos. Davis, por exemplo, se posiciona abertamente sobre a legalização da prostituição, mas sob uma perspectiva classista e antirracista.

(2) O uso de “radical” por Davis remete etimologicamente à palavra: ir à raiz dos problemas. E não a uma corrente do Feminismo.

Brevíssimas do Facebook – Aos 24 anos.

Aos 24 anos, eu não tinha nem terminado a primeira Faculdade ainda. Já tinha encontrado o amor da minha vida, a alma gêmea, pelo o que dizem. E a gente já tinha se separado porque a vida, ah… a vida não alivia para os que vivem de vera. Aos 24 anos, então, eu já tinha um buraco no peito, que buscava ferozmente se preencher com todos os amantes universitários possíveis no caminho. Aos 24 anos, eu já tinha experimentado meu primeiro porre, minha primeira dor de cabeça de ressaca persistente. Aos 24 anos, eu já tinha dado a volta ao mundo fazendo todos os dias o trajeto São Luis – Butantã – São Luis. Aos 24 anos, eu já tinha perdido amigo pela violência da guerra às drogas. Aos 24 anos, eu já tinha realizado grande parte das minhas vontades e desejosas experimentações sexuais. Aos 24 anos, eu já havia dançado na chuva com amores rápidos e passageiros mais vezes do que poderia contar. Aos 24 anos, eu curtia indie rock e passava madrugadas discutindo Literatura, cinema e política. Aos 24 anos, eu já amava o velho Bukowski. E já o odiava também. Aos 24 anos, eu já tinha chorado romances inteiros e o poema “O sentimento do mundo” diante do meu professor de Literatura, que não soube muito o que dizer, além de “Não chore, menina. Ainda há muito no mundo para chorar”. Aos 24 anos, eu aprendia que estava começando a viver e que o desejoso de possuir é uma alma inteira de experiências. E isso já me basta.

Brevíssimas do Facebook – A gente não se basta

Conversas que tive estes dias com um amigo e que vou escrever e sair correndo.

Acho bem importante desconstruirmos o ideal de amor romântico. Tive um professor na Faculdade de Letras que sempre afirmava que o romance (desde tempos longínquos, como nas novelas e cantigas) é uma chaga social. Essa ideia de que há uma metade da laranja, uma tampa da panela, essa procura judaico-cristã por uma costela supostamente perdida (emprestada) são atrasos psico-sociais.

Semana passada, conversei com uma amiga e houve uma afirmação da parte dela e que martelou na minha mente, a ponto de eu ir buscar na Antropologia, etc., de que o amor romântico e o casamento, como construtos sociais, também foram sequestrados pelo Capital. É mais barato, garante ali um sexo meia boca pras pessoas, uma ideia de estabilidade, etc. Brisas. Brisas boas. E que concordo.

Mas, olha só, existe uma contra-narrativa que também me incomoda. E que pulula no aproximar-se de junho. Essa ideia de que “nos bastamos” é uma falácia também.

Somos seres sociais. Precisamos de pessoas, de contato ou vocês me explicam porquê que humano se odeia tanto e ainda insiste em viver em cidades, vilas, aldeias, etc. Não. Não é apenas pelo interesse. É porque, mesmo na nossa mais alta anti-sociabilidade, a gente ainda precisa, seja psíquica seja socialmente, de vez em quando, contatar/ver o outro. Mesmo que para negar o outro. E esse outro pode ser vários outros.

Então, assim, trabalhar a auto-estima, o “se sentir bem consigo mesma”, não significa mentir pras minas que elas “se bastam” sozinhas. Não se bastam. Sempre precisaremos do outro e da outra. Não por faltar uma metade, não porque sofreremos (até vamos, as vezes. E daí? Isso não te faz mais fraca) ou porque seremos “incompletas”. Esse outro/outra pode ser sua amiga, sua mãe, sua irmã, seu amigo, seu irmão, primo. Ter momentos sozinhas não significa se bastar.

Sou pisciana, mística. Eu amo morar sozinha. Me irrito em espaços fechados com muita gente (mesmo abertos). Adoro meus silêncios em casa, dançar sozinha e pelada na sala, converso sozinha e com os meus gatos. Nenhum problema sobre isso. Mas eu não “me basto”. E acho uma pretensão ególatra falarmos isso. Acho uma falsa cura para o mal do amor romântico.

A gente deveria fantasiar menos ao tentar (des)fantasiar o amor romântico. Ou estaremos jogando minas com auto-estima já tão frágil numa mentira que as manterá vazias. A gente não se basta. Mas a gente, muito menos é refém de amor romântico. Me faço entender?

Ame sempre. Ame suas amigas, ame sua família, ame pessoas desconhecidas na rua. O amor é multifacetado e essa amplitude dele é que é legal. Só não acredite que você se basta. Se achar isso, vai viver numa cabana na floresta. Mas, olha, inclusive lá, você vai ver que, de vez em quando, vai precisar do outro. Ser inteira não significa bastar-se. Significa se abrir pra todo tipo possível de amor.

É fato. A felicidade não está presa no pote do amor romântico. Mas também é fato que a felicidade é tão ampla em sentidos quanto o amor. A gente pode estar feliz afundada no sofá de casa assistindo Netflix. E a gente pode estar feliz assistindo um show de jazz com amigos. É mais verdadeiro bastar-se junto. Sabecomé?

Desculpa pelo textão.

(publicado em 21/5/2017)